Hidroxicloroquina

A hidroxicloroquina é um derivado do quinino que compartilha muitas das propriedades farmacológicas da cloroquina, um agente antimalárico e anti-inflamatório, levemente mais potente do que a cloroquina.

A administração de cloroquina a camundongos e macacos durante a gestação resultou na passagem transplacentária e acúmulo no córtex adrenal e retina. Em ratos, altas doses maternas de cloroquina foram tóxicas ao feto e produziram anoftalmia e microftalmia, que podem ser resultados inespecíficos de toxicidade generalizada no rato.

Existe um relato francês de 1969 sobre dois casos de degeneração da retina em recém-nascidos expostos no pré-natal a cloroquina e um relato de 2011 sobre uma criança com anormalidades oculares (anomalia de Peter) exposta ao metotrexato durante as primeiras oito semanas de gestação e cloroquina ao longo da gestação. Um estudo de 2001 sobre as possíveis anormalidades oftalmológicas em 21 crianças submetidas à exposição à cloroquina ou hidroxicloroquina durante a gestação, para o tratamento de doença reumática materna, não encontrou evidência de toxicidade ocular. Dois estudos foram realizados com crianças expostas à hidroxicloroquina durante o período pré-natal. Em nenhum deles foram encontradas deficiências visuais ou auditivas nas crianças avaliadas por um ano. Uma revisão da literatura em 2011 não encontrou evidência de toxicidade ocular após exposição durante a gestação à cloroquina ou à hidroxicloroquina (Osadchy A, et al. Ocular toxicity in children exposed in utero to antimalarial drugs: review of the literature. J Rheumatol. 2011 Dec;38:2504-8).

Doses de hidroxicloroquina ou cloroquina para doenças reumáticas têm sido usadas com segurança durante a gestação por mães com Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES). Em um estudo duplo-cego controlado por placebo envolvendo 10 gestantes tratadas com  hidroxicloroquina, os resultados encontrados foram mais favoráveis nas gestações envolvendo a hidroxicloroquina quando comparados com o grupo placebo. O exame neonatal não revelou anomalias congênitas, e avaliações neuro-oftalmológicas e auditivas nos indivíduos com 1,5 a 3 anos de idade não detectaram deficiências nos filhos expostos. Em 68 mulheres tratadas para doenças do tecido conjuntivo com hidroxicloroquina, 76 gestações foram comparadas a um grupo não tratado. Embora a idade gestacional tenha sido maior no grupo exposto, sugerindo um efeito benéfico do tratamento, não houve diferença no peso ao nascer ou aumento nos defeitos de nascimento em nenhum dos grupos analisados.

Mulheres com LES tem maior risco de perda fetal e aborto  espontâneo. Apesar dos poucos dados disponíveis sobre a segurança de hidroxicloroquina durante a gestação, aumento da atividade do LES é prejudicial para o resultado da gravidez, e a hidroxicloroquina não deve ser interrompida durante a gravidez em pacientes com lúpus.

Um estudo norueguês de 2012, que utilizou bancos de dados do Registro Médico de Nascimentos da Noruega ligada com os dados de prescrição, identificou 58 homens e mulheres que receberam prescrições de hidroxicloroquina na gravidez e relataram a quatro nascimentos com defeitos não especificados nesta amostra, o que estava dentro do esperado estatístico. Um relatório de 2013, que avaliou os resultados do parto em 114 indivíduos que relataram o uso de hidroxicloroquina durante a gestação para tratar LES (69%), lúpus discoide (3%), ou artrite reumatoide (22%) não encontrou aumento significativo de defeitos congênitos, comparado a uma população de controle.

Em um relato sobre 169 nascimentos com exposição à cloroquina em doses antimaláricas (300 mg) uma vez por semana durante a gestação, somente dois recém-nascidos apresentaram anormalidades: um com Tetralogia de Fallot e o outro com hipotireoidismo congênito. Esta incidência de defeitos de nascimento nos bebês expostos não foi significativamente maior que a detectada na população controle. Devido à baixa imunidade durante a gestação, qualquer resistência adquirida à malária é reduzida, e a gravidade da doença em mulheres grávidas é aumentada. Primíparas que ainda não tenham sido expostos à malária estão em maior risco, especialmente durante o segundo trimestre. Como a cloroquina tem sido mais amplamente usada e estudada do que a hidroxicloroquina, ela é a droga de escolha para a profilaxia e tratamento da malária durante a gestação. Embora menos estudada, a profilaxia com hidroxicloroquina durante a gestação também tem sido classificada como segura. Assim, as grávidas que viajarem para regiões com malária são aconselhadas a seguir as recomendações atuais para evitar a exposição e para receber a profilaxia com hidroxicloroquina ou cloroquina, se os organismos endêmicos de malária são sensíveis.

Uma revisão sistemática recente sobre o uso de hidroxicloroquina em pacientes grávidas com doenças auto-imunes avaliou 82 artigos entre 1980 e 2007. A conclusão do estudo foi de que a hidroxicloroquina não está associada com risco de defeitos congênitos, abortos espontâneos, morte fetal, prematuridade e redução do número de nascidos vivos em pacientes com doenças auto-imunes. (Abarientos C, et al., Hydroxychloroquine in systemic lupus erythematosus and rheumatoid arthritis and its safety in pregnancy. Expert Opin Drug Saf. 2011 Sep;10(5):705-14.)

Amamentação:
Pequenas quantidades de hidroxicloroquina são transferidas para o leite. Estudos feitos com um pequeno número de mulheres amamentando, incluindo duas que tomavam altas doses dessa droga para tratamento de LES, estimaram que a dose recebida pelo lactente estava abaixo de 0,2 mg/kg. Os efeitos prejudiciais advindos dessa exposição são considerados improváveis. A Academia Americana de Pediatria classifica o uso da hidroxicloroquina como compatível com a amamentação. Baseado na revisão do banco LactMed, a maioria das medicações para o LES são seguras na amamentação, já que a transferência de cada medicação acontece em baixas concentrações para leite materno. A hidroxicloroquina está na lista de medicações compatíveis com a amamentação da Academia Americana de Pediatria. Com uma dose diária de 400 mg, o leite materno que a criança recebe tem 0,002 a 0,219 mg/kg, dependendo do tempo de intervalo entre o uso de medicação e de amamentação. O seguimento de uma pequena coorte de crianças até 1 ano, expostas a hidroxicloroquina, não demonstraram efeitos adversos no crescimento, audição e visão. A hidroxicloroquina, se houver indicação, deve ser continuada durante a gestação e a lactação.

IMPRESSÃO:
A Hidroxicloroquina não esteve associada a desfechos gestacionais adversos em mais de 300 exposições gestacionais humanas. Estudos  experimentais em animais sugerem desfechos desfavoráveis apenas quando há exposição materna a altos níveis desse fármaco. A profilaxia e o tratamento para malária durante a gestação são considerados de menor risco do que a doença em si. Em pacientes com Lúpus Eritematoso Sistêmico, a hidroxicloroquina tem sido a escolha terapêutica no lugar dos corticoides sistêmicos.

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