A coordenadora do Sistema Nacional de Informação sobre Teratógenos (SIAT), Dra. Lavínia Schüler-Faccini, publicou um importante artigo abordando um tema que tem despertado crescente atenção da comunidade científica: os efeitos da poluição do ar em ambientes fechados sobre a saúde humana, especialmente durante a gestação.
Embora a poluição atmosférica externa seja amplamente discutida, os ambientes internos — como residências, escritórios, escolas e indústrias — podem concentrar diversos contaminantes químicos, biológicos e físicos capazes de representar riscos significativos à saúde. Entre eles estão compostos orgânicos voláteis (COVs), formaldeído, ftalatos, retardantes de chama bromados, micotoxinas e metais pesados presentes em tintas, revestimentos e materiais de construção.
Poluentes podem aumentar o risco de anomalias congênitas
No artigo, a Dra. Lavínia destaca que a exposição a essas substâncias durante períodos críticos da gestação pode interferir no desenvolvimento embrionário. Diversos estudos apontam que determinados poluentes atuam como desreguladores endócrinos, alterando o funcionamento hormonal e comprometendo processos fundamentais da formação fetal.
Como consequência, essa exposição pode estar associada ao aumento do risco de malformações cardíacas, defeitos do tubo neural, alterações craniofaciais e anomalias esqueléticas, dependendo do agente químico e do período gestacional em que ocorre o contato.
Impactos também atingem o neurodesenvolvimento
Outro ponto abordado na publicação é a influência da poluição do ar interior sobre o desenvolvimento do sistema nervoso.
Pesquisas científicas relacionam a exposição pré-natal a substâncias como formaldeído, pesticidas, chumbo, manganês e partículas finas provenientes de fogões a lenha ou sistemas de aquecimento ineficientes ao aumento do risco de transtorno do espectro autista (TEA), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), redução do quociente de inteligência (QI) e atrasos no desenvolvimento da linguagem e das funções executivas.
Segundo a autora, o cérebro fetal encontra-se em intensa formação durante a gestação, tornando-se especialmente vulnerável à ação de agentes neurotóxicos, mesmo em concentrações consideradas baixas.
Relação entre poluição e infertilidade
O artigo também reúne evidências sobre os efeitos da exposição prolongada a contaminantes presentes em ambientes internos na saúde reprodutiva.
Substâncias como os ftalatos e o bisfenol A (BPA), encontrados em plásticos e materiais de construção, possuem ação hormonal capaz de comprometer tanto a fertilidade masculina quanto a feminina. Estudos têm associado esses compostos à redução da qualidade dos espermatozoides, alterações nos ciclos menstruais, endometriose e dificuldades na implantação do embrião.
Qualidade do ar interior deve ser prioridade
A publicação reforça a importância de ampliar as estratégias de prevenção voltadas à qualidade do ar em ambientes fechados, especialmente em locais frequentados por gestantes, crianças e famílias que planejam uma gravidez.
Entre as medidas destacadas estão a adoção de materiais de construção mais seguros, melhoria da ventilação dos ambientes e monitoramento da qualidade do ar interno, contribuindo para reduzir exposições potencialmente prejudiciais ao desenvolvimento fetal.
A atuação do SIAT reforça a importância da disseminação de conhecimento científico para a prevenção de anomalias congênitas e para a promoção de ambientes mais saudáveis.


